De quem é
a “Culpa”?
Conta-se
que uma aldeia, bem nas montanhas, vivia muito triste. Tinha muitos
problemas,
fazia anos, e ninguém se entendia sobre eles. Um ficava acusando o outro.
Um
dia, um jovem da aldeia retirou-se para a mais alta montanha a fim de
pensar sobre
sua vida: será que valia a pena viver ali? Era tão triste... Não seria
melhor
procurar outra aldeia? Mas, no fundo, não queria deixá-la, pois afinal, apesar
da tristeza
reinante, era ali que tinha os parentes, os amigos, a namorada. Pediu ajuda
aos deuses.
Foram dias e dias de reflexão. Até que os oráculos se compadeceram, e
ele teve uma
iluminação.
Voltou,
então, para a aldeia e começou a refletir com as pessoas que não
deveriam
procurar o “culpado” e sim o responsável, pois afinal, falar em culpa era
remeter até a
um caráter religioso e isto pesava muito. Foi necessário um tempo para
todos se
convencerem disto. Vencido este desafio, passou para a segunda fase do
plano:
mostrava que, como o problema era muito complexo e de tanto tempo,
provavelmente
não haveria um, mas vários responsáveis.
Quando
o ambiente estava preparado, anunciou ao povo que um dos
responsáveis
havia sido preso. Todos morreram de curiosidade, pois, de tanto se
acusarem, já
haviam perdido a noção das coisas. Organizou-se uma grande fila em
frente à
delegacia; todos estavam eufóricos: finalmente aparecia um responsável. O
interessante,
no entanto, era observar como as pessoas saíam de lá: cabisbaixas,
reflexivas. Os
que estavam ainda aguardando na fila não entendiam bem, pois
esperavam ver
uma certa sensação de alívio e de “acerto de contas”.
Toda
população interessada teve oportunidade de conhecer um dos
responsáveis
através do visor da cela.
Depois,
aos poucos, o povoado foi se transformando: os problemas começaram
paulatinamente
a serem resolvidos e a alegria foi voltando. A mudança foi tanta que
resolveram
fazer uma homenagem ao jovem. Este recusou, argumentando que a
transformação
se devia a todos e não apenas a ele. Pediu, no entanto, uma coisa:
como com o
tempo as pessoas poderiam se esquecer, que se conservasse sempre a
possibilidade
de se ver um dos responsáveis e que nunca se tirasse, portanto, o
espelho que
ele tinha colocado por detrás do visor da cela...
Celso dos S.
Vasconcellos
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